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Abitrigo . sexta-feira, 26 de novembro de 2021
Oferta global menor ajuda a sustentar o preço do trigo

Dólar também dá mais suporte às cotações no Brasil

Com a assustadora chegada da covid-19, no fim do primeiro trimestre do ano passado, consumidores de todo o mundo correram para estocar produtos derivados de trigo. Governos criaram reservas reguladoras e, nesse cenário de demanda aquecida, agricultores em diversos países semearam mais trigo na safra 2020/21 do que em 2019/20. Portanto, era de se esperar fartura do cereal. Mas não é o que está acontecendo.
 
Em algumas importantes regiões produtoras, São Pedro não colaborou e a colheita mundial, embora maior que a anterior, não chegará às estimativas iniciais. O Conselho Internacional de Grãos (IGC, na sigla em inglês), por exemplo, acaba de reduzir em 10 milhões de toneladas sua estimativa para o volume total em 2020/21, para 777 milhões de toneladas, 3 milhões a mais que no ciclo passado, mas bem longe da projeção divulgada pelo órgão em julho, de 795 milhões de toneladas.
 
Segundo o IGC, lavouras na Europa e no Uzbequistão estão comprometidas pelo tempo seco e não vão compensar os ganhos observados na Rússia. E, como a expectativa é de consumo de 782 milhões de toneladas, acima das 771 milhões em 2019/20, os estoques estão mais apertados. Conforme o IGC, serão 274 milhões de toneladas na passagem desta temporada para a próxima, ante as 278 milhões de 2019/20 para 2020/21.
 
A respeitada consultoria francesa Strategie Grains também não está otimista com a produção europeia. Apesar de prever um superávit de 800 mil toneladas na região, diz que essa “folga” será resultado dos preços elevados do trigo, que têm freado o consumo. Os contratos futuros do cereal em Paris - referência para Europa - chegaram ao seu pico em pelo menos 30 anos na semana passada. Os papéis já subiram mais de 40% neste ano e estão em cerca de 307 euros (US$ 345,45) a tonelada.
 
Em Chicago, referência para as negociações em todo o mundo, a valorização dos papéis de segunda posição em 2021 chegou a 32,96% até quarta-feira - ontem, a bolsa não abriu por causa do Dia de Ação de Graças nos Estados Unidos -, conforme cálculos do Valor Data.
 
Problemas na Austrália
 
A última grande novidade nos fundamentos foi a constatação de problemas também na Austrália, que até então não preocupavam investidores, governos e empresas. “O foco da noite para o dia passou para as chuvas chegando à Costa Leste da Austrália e para as previsões de mais precipitações no próximo fim semana, aumentando a ameaça de danos e problemas de qualidade na safra”, disse Richard Buttenshaw, da Marex Spectron, à agência Dow Jones Newswires. Problemas de qualidade em países como EUA, Canadá e Rússia também cresceram e podem aumentar o aperto no mercado, afirmou.
 
Em seu último relatório, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) baixou de 9,3 milhões para 8,7 milhões de toneladas a estimativa para os estoques americanos porque o tempo chuvoso, após uma seca severa, prejudicou a produção.
 
Rússia
 
A Rússia poderia ser a salvação global. Com previsão de colheita de 80,7 milhões de toneladas, segundo a consultoria russa SovEcon, o país poderia exportar até 34 milhões de toneladas. Ocorre que o governo russo ameaça elevar os impostos para as vendas externas e já anunciou que haverá cotas na entressafra local entre fevereiro e junho de 2022.
 
“Mas, nas próximas semanas, os embarques devem permanecer fortes. O trigo russo recuperou sua vantagem competitiva graças ao aumento mais rápido dos preços na União Europeia”, disse Andrey Sizov, analista da SovEcon. E acrescentou: “as tradings estão apenas aumentando os embarques até o fim de 2021 para ganhar uma fatia maior da cota. As cotas individuais serão distribuídas pelo governo russo com base nas participações nas exportações em julho-dezembro de 2021 e não se sabe como será no começo do ano que vem”.
 
Argentina
Nesse tabuleiro global, o Brasil continua muito dependente da Argentina, origem de 80% das compras. E, sem problemas climáticos no país vizinho - que deverá exportar o recorde de 13,5 milhões de toneladas em 2020/21, 13,4% mais que em 2019/20 -, os preços é que podem ser os vilões da temporada. Com o dólar e os preços em Chicago elevados, a tonelada do cereal foi negociada entre 1º e 20 de novembro, em média, por US$ 299, com perspectiva de chegar a US$ 315 em fevereiro e a US$ 323 em junho, de acordo com a consultoria T&F.
 
No mercado interno, levantamentos da T&F feitos em campo mostram que a colheita será mais próxima de 6,4 milhões de toneladas, bem abaixo da última previsão da Conab, de 7,68 milhões. A seca no Rio Grande do Sul no período de enchimento de grãos, seguida por excesso de chuva na época do amadurecimento, fizeram a consultoria cortar sua previsão de colheita no Estado de 3,2 milhões para 2,6 milhões de toneladas - ainda 15% acima do ciclo passado. No Paraná, a colheita deve cair 9%, para 2,8 milhões.
 
“O preço do trigo está subindo no período de colheita, o que mostra que as perspectivas continuam de alta no começo do ano que vem”, afirmou Luiz Pacheco, da T&F. Ou seja, não serão as massas, pães e bolos que aliviarão os índices inflacionários no país nos próximos meses.

Fonte: Valor Econômico